Eram por volta das dez da manhã de sábado. Estava a sair de uma bottle store na zona do Museu, ao lado do restaurante Shamwari. Tinha ido comprar bebidas para um almoço, já que nesse dia recebia em casa um casal amigo.
Depois de uma seleção rápida de vinhos e bebidas brancas, saí em direção ao meu Renault Kwid azul. Ao atravessar a pequena estrada, noto a passagem de uma carrinha Mahindra da polícia carregada de agentes. Enquanto arrumava as bebidas no banco de trás, reparei que a referida carrinha tinha parado uns 150 metros mais à frente, na mesma rua.
Ao sentar-me ao volante, vejo dois polícias militares, com coletes à prova de nada, a correrem na minha direção, armas na mão. Por momentos, percorri mentalmente tudo o que poderia ter feito de errado. A única infração plausível que me ocorreu foi ter colocado as bebidas dentro da viatura, algo que vagamente me parecia proibido.
Fui-me preparando para a conversa enquanto os referidos agentes da lei e da ordem chegavam junto à minha janela.
Baixei o vidro e, de forma simpática, perguntei o que se passava. Os militares, também simpáticos, mas com um sentido de urgência perfeitamente ensaiado, explicaram que um grupo de bandidos tinha tentado raptar um comerciante indiano e que o carro da polícia estava em perseguição até ter ficado sem combustível.
— Eles até riram na nossa cara — explicou um dos agentes.
Perguntou-me então se eu podia ajudar com algum dinheiro para comprarem combustível.
Depois de um momento de surpresa, vasculhei os bolsos e encontrei uma nota de 500 meticais, que entreguei ao meu interlocutor. Ele amarrotou a nota na mão e seguiu apressadamente com o colega de volta para a viatura, depois de agradecer a contribuição.
Fiquei ali mais uns segundos, meio atónito, a refletir sobre o que acabara de acontecer. Na melhor das hipóteses, tinha contribuído para uma ação de proteção civil. Na pior, tinha pago umas cervejas às forças de defesa e segurança.
Segui caminho para um almoço que, felizmente, foi bastante agradável.
Um beijo para o vazio.
