segunda-feira, 7 de março de 2016

O Caril de caranguejo da Dona Olga (Parte 2)


Perto das 13:00 começaram a chegar os convidados. A primeira a chegar, cheia de entusiasmo e preparada para não perder uma pitada dos acontecimentos lá estava a Dona Carminda, excessivamente vestida e maquiada para um evento tão pouco formal. Trazia o seu famoso bolo de mármore que, segundo ela, já tinha encantado a mesa de certo sultão.

Não demorou muito para que os 14 se juntassem em torno da mesa de pedra. O espaço, nas traseiras do quintal e adjacente à sala de visitas ficava nesta altura do ano como que coberto por um manto branco de uma buganvília exuberante, a mesa de pedra era rodeada por um pequeno muro que servia também de assento. Algumas pesadas cadeiras de ferro com coloridas almofadas  serviam os glúteos mais sensíveis. 

A mesa estava devidamente recheada de entradas e petiscos. Todos servidos de bebida foram conversando em alegre cavaqueira antecipando a entrada triunfal da panela do caranguejo.

O espetáculo não se fez rogado, o cortejo vinha da cozinha por um caminho lateral, em frente a pequena Dona Olga de sorriso aberto e acolhedor, seguida do Xavier com a tão esperada panela, e com o Julio carregando a panela do arroz. Faltou à solenidade do cenário um rufar de tambores enquanto as panelas eram depositadas no lugar de honra.

O Sr. Jorge adiantou-se dando o exemplo e serviu-se. Primeiro do arroz, que de seguida foi generosamente regado com molho da panela do caril, com a carne e com alguns corpos e patas de caranguejo ao lado. Um indispensável pedaço de pão para aproveitar o molho. Para o Sr. Jorge o pedaço de pão tinha de ser barrado com bastante manteiga.

Entretanto já tinha sido adicionado à mesa uma tábua de madeira e um pequeno martelo para ajudar a partir a dura casca das tenazes do caranguejo.

As horas seguintes foram de degustação, conversa e muito álcool. Os colegas do ministério não tiveram dificuldade de integrar-se e foram paulatinamente ficando inebriados tal qual o resto dos convidados.

A certa altura o Manuel já incapaz de discernir quem estava em volta: “Arlindo fui lá nas massagens das chinas na Mau-tse-tung. Sabes que no final fui atacado pela moça? Não sei o que pensam aquelas. Ainda mais foi aquela tal Mei Ling que recomendaste. Acho que desaguentou com o meu charme … hehehehe.”

A esta altura o Sr. Arlindo não sabia onde se meter, a expressão da esposa mostrava um tormento de quem tentava conter um ataque de fúria. O marido falava com muito apreço do sitio e não dispensava as duas visitas semanais para se livrar o "stress do trabalho”.

“Parece que está na nossa hora. Vamos Arlindo!”. Disse a ofendida esposa com uma assertividade que fez saltar o pobre Arlindo do assento. O Manuel nem se atreveu a mexer-se e percebeu pelo olhar do chefe que o tema não ficaria por ali.

Com grande sobriedade a Dona Olga agradeceu a visita e acompanhou os convidados a porta. Aproveitou para expressar a sua simpatia pela situação da convidada pressionando firmemente sobre o ombro enquanto se despedia. “Tenha calma que tudo se resolve.”.

Ao voltarem a mesa os restantes convidados rebolavam-se de riso. A Dona Olga sobrepôs ao alarido um sonoro “Quem vai querer sobremesa?” cujo tom matou a galhofa e devolveu a todos o pachorrento ritmo de um domingo a tarde. Todos menos a Dona Carminda que se retorcia num cantinho incapaz de conter a agitação.

Levantou-se quase a correr e despediu-se sem parar “Tenho de ir, preciso fazer uns telefonemas!!!”. Parecia com medo que os detalhes da cena se esfumassem antes de passar a palavra.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Caril de caranguejo da Dona Olga (Parte 1)

Algumas das memórias mais antigas que tenho estão relacionadas com as Domingadas em casa dos meus pais. O Domingo era um dia de festa, de agitação, uma roda de amigos à volta de uma mesa de pedra excessivamente alta, e, sempre em volta do Caril de caranguejo da minha mãe.

O caril da Dona Olga era em si um fenómeno, uma mescla de culturas, na sua panela eram fundidos sabores antagónicos num prato verdadeiramente universal. Ao nosso caranguejo eram adicionadas especiarias orientais e enchidos lusitanos. O resultado era algo que para mim era e é um sabor moçambicano autentico.

Felizmente a receita não se perdeu, antes de se despedir deste mundo a minha mãe passou a receita para a geração seguinte, na pessoa dos seus genros.

Este Domingo fizemos uma Carilada em casa com alguns amigos e fez-me nostálgico inspirando a misturada de memórias antigas, conversas e fantasia que se segue.

Um beijo para o vazio …


O Caril de caranguejo da Dona Olga (Parte 1)

“Dona Efigénia! como está a encher o saco com esses pequenos? Assim não compro mais consigo.” - bramava a Dona Olga para a sua vendedeira de caranguejo predileta do mercado do peixe.

Tudo o jogo habitual em que uma e outra faziam como se fosse a primeira vez. Era o refilar com o preço, fazer de conta que ia procurar outra vendedeira, a areia no fundo do saco a fazer mais peso, a balança mafiada, enfim, um jogo rotineiro a que as duas se davam o gosto de fazer, e que no fim resultava sempre no mesmo.

Uma e outra saiam que nem gladiadoras triunfantes na arena do mercado do peixe.

Este era o inicio do longo processo do caril de caranguejo da Dona Olga, e tinha lugar no quase eterno mercado do peixe, mesmo em frente ao Clube Marítimo, na marginal de Maputo.

Junto do essencial caranguejo vinha sempre mais alguma coisa, um quilito de lulas, garoupa, camarão, amêijoa, tudo após uma gladeio similar ao da Dona Efigénia e a mesma sensação vitoriosa.

Tudo era atafulhado no cesto de palha descomunal e carregado pelo xipfanhana ajudante também habitual. Depois de dispor de umas moedas ao miúdo, inquirir-se da escola e das aulas e de uma palavra de encorajamento e sermão, o cesto era depositado no porta bagagens do fiável Colt Galant amarelo torrado e lá ia a Dona Olga de regresso a casa para iniciar a fase seguinte do preparo.

Arrumado o carro na garagem aberta do número 79 da Fernão Lopes vinha o habitual berro pelo Xavier. “Vamos a despachar já não temos muito tempo. Prepara esse caranguejo enquanto vou adiantando o resto. Aproveita para escamar o peixe e limpar as lulas.”.

Na sua cozinha o Xavier já tinha deixado tudo pronto para a sinfonia da sua patroa. O chouriço de carne cortado às rodelas, o entrecosto arranjado em cubos, a cebola picada, as caixas dos temperos alinhadas em redor do almofariz, e o panelão assente no fogão.

Com a precisão de um alquimista a Dona Olga fazia a sua mistura de temperos, o pó de caril, pimenta, e, outros tantos, numa combinação para a qual mantinha o maior secretismo. Tudo calculado proporcionalmente de acordo com a audiência do dia.

Hoje, o Sr Jorge convidara colegas do Ministério. O Dr. Alrindo, secretário do ministro que traria a esposa, e o novato técnico de contas o Manuel. Para além destes fariam-se presentes alguns dos habitués, amigos chegados, primos, vizinhos num total de 13. Como a Dona Olga nunca permitia que tal número de sentasse à sua mesa, não fosse dar o mesmo azar que certa malfadada ceia, lá empurrou muito a desgosto a Dona Carminda, uma vizinha com problemas de conter a língua.

O cheiro da mistura de temperos com a carne e com o caranguejo foi inundando a casa. A mesa estava posta, os pratos em pilha no centro, os talheres desmarnados cuidadosamente desarrumados numa pilha, copos, guardanapos e as bases para o panelão esperando por este.

O Sr Jorge como era habito se encarregara das bebidas, do gelo, dos colemans. Usava das suas artimanhas habituais, enchia a garrafa de Chivas de 18 anos com whisky corrente, não  tanto para impressionar os convidados mas sim para expor a sua presunção de expertise. Calculara meticulosamente a quantidade de vinho e de cerveja com base no seu registo mental dos hábitos dos convidados e com um mestria estatística só ao alcance dum economista do seu gabarito.

(continua …)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Natal de um ateu hipócrita

Odeio o Natal, foi assim que me deu por iniciar este texto, mas não é verdade não odeio o Natal, embora não morra de amores por ele também. Vejamos se me explico melhor…

Sou ateu, e assumo-me hipócrita, hipocrisia esta que fica mais patente nesta época do ano. Nesta altura vejo-me um poli-hipócrita … um pequeno aparte fiquei admirado que o corrector ortográfico tivesse reconhecido a palavra … damn it … eu aqui a imaginar-me tal Mia Couto um inventor de Português.

Voltando ao texto, a primeira e maior hipocrisia é ser ateu e não odiar o Natal. Falo mal do consumismo mas comprei umas prendinhas, para os mais chegados apenas, a verdade é que gosto de todo o ritual em volta desta quadra festiva. Gosto de organizar o Jantar de Natal do escritório, do amigo secreto, de escolher a prenda certa para a pessoa especial, de ser surpreendido com uma prenda inesperada, gosto da fazer a arvore e das luzes, gosto da mesa para ceia montada a preceito (recorda-me a minha mãe), do bacalhau na ceia, da roupa velha no dia seguinte, gosto de tudo isto. Ao mesmo tempo sei que aquilo que está na base disto tudo é bastante perverso, uma montagem elaborada misturando rituais seculares, pagãos, e, uma boa dose de propaganda consumista para criar um engodo que mantém milhares de pessoas presas a uma ideologia que tarda em acompanhar os tempos.

A mais complexa hipocrisia é o acto de solidariedade anual … lá fui eu no meu anual e pouco habitual entusiasmo militante a mobilizar o resto dos colegas para contribuírem, para participarem, para se entusiasmarem…a hipocrisia aqui claro que está em acharmos que a participarmos uma vez por ano no que quer que seja estamos a fazer alguma coisa. Mas fui lá militantemente engajado a distribuir a sopa solidária pela cidade, mas não voltei de coração cheio, muito pelo contrário, voltei abismado com aquilo que conseguimos todos dias ignorar para continuar contentes e felizes nos nossos pequenos mundos … bom acho que foi mais uma hipocrisia mas seguindo em frente.
Observando um pouco pelas redes sociais os posts, as fotos e os comentários percebi que não estou sozinho na hipocrisia, somos um montão deles, se nos uníssemos fazíamos um grande partido e olha que tínhamos com certeza mais “ideais” comuns que muitos partidos de verdade.
Uma observação mais cuidado e deu para ver que há vários tipos de hipócritas, talvez haja níveis de hipocrisia. Vou tentar brincar com algumas classificação:

O/A hipócrita Sem Noção - aquele que está numa ação de solidariedade para mostrar ao mundo como é solidário e é de tal forma desligado da realidade que consegue tirar selfies em momentos muito impróprios;
O/A hipócrita Oportunista -  bloguista/jornalista/politico/pessoa publica que participa  ou organiza a ação de solidariedade como forma de auto-promoção. Fácil identificar pela enxurrada de mediatismo que acompanha a ação e muito provavelmente, para que ninguém tenha duvidas coloca o próprio nome na campanha;
O hipócrita seguidor - este é de fácil descrição, foi porque os outros foram, se pudesse não ia mas ficava mal ficar de fora;
O hipócrita ausente - este é uma raça particularmente interessante, não vai, e não entende porque os outros vão, e em particular porque é que lhe fazem sentir mal de não ir.

Podia continuar por aí a fora a brincar um pouco com esta ideia mas não faz mais sentido a mensagem está clara. Não sei em qual dos casos me encaixo mas também sei que não me arrependo de ter-me hipocrisado este ano.
Não que traga nenhum sentimento de dever cumprido ou que ache ter feito alguma diferença quer na vida de quem precisa ou mesmo na vida das organizações. Senti no meu gesto um reconhecimento a uma organização (neste caso a Plataforma Makobo) que todos dias faz da solidariedade o seu modo de vida, faça chuva, faça frio, faça vento, sem câmaras e sem mediatismo estão lá  na lutam para minimizar o sofrimento dos outros e para suprimir onde o estado chega, e todos nos cidadãos também não.

Fica a determinação comigo mesmo para não esperar pelo próximo natal para dar a minha mão e apoiar esta ou outra ação social.

Nesta história de solidariedade natalicia não posso deixar de recordar-me de uma cena dos meus 15/16 anos com a Dona Alzira em Braga, cidade mais beata que já ví, desculpem-me os amigos bracarenses mas quando lá fui era assim. A Dona Alzira, uma católica ferrenha, era uma amiga dos meus pais e fiquei algumas vezes uns dias de férias em sua casa. Lembro perfeitamente um dia perto do Natal que a Dona Alzira puxa-me do braço para a acompanhar a fazer a sua Ação solidária de Natal. Saímos a pé à procura de um mendigo a quem ela faria o seu gesto solene e voltaria para casa com a sua consciência mais leve. Olha que foi um dia penoso, percorremos milhas à procura de um mendigo para a Dona Alzira e nada. Finalmente findas umas 3 horas de preambulo lá encontrou alguém num canto sentado e com um ar suficientemente desterrado para atingir as expectativas solidárias da Dona Alzira. Em surdina e que a Dona Alzina não nos oiça, acho que ele estava apenas com os copos.

Foi uma boa dose de hipocrisia e talvez onde a minha formação se tenha iniciado.

Um beijo para o vazio …

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Micro-activismo

Mais e mais me vejo fascinado com a forma como cada um de nós pode influenciar as pessoas à sua volta.Como, basta a conduta individual e o agir como exemplo para mudar a mentalidade daqueles que nos rodeiam e com quem convivemos no dia-a-dia.

Pareceu-me adequado chamar a este fenómeno de Micro-Activismo, embora mais tarde tenha-me apercebido que o termo, Micro-Activismo já é usado em outro contexto, não focado no aspecto restritivo do meio de acção, mas antes na restrição do tema de acção.

Seja como for parece-me que a par do Activismo no conceito tradicional, feito e muito bem pela Lambda, com a formação e educação da sociedade, com a participação junto das outras organizações da sociedade civil, com as acções de sensibilização, e de promoção de direitos, há um espaço de acção que deve ser ocupado por cada um de nós vivendo abertamente a nossa sexualidade e “educando” as nossas famílias, os nossos amigos, os nossos colegas, enfim o nosso microambiente.

Desde que assumi a minha homossexualidade que senti um apoio muito grande dos meus amigos, fizeram de tudo para me mostrar que nada mudava, que me conheciam como eu sou e assumiam esta “descoberta” com a indiferença que ela requeria. Claro que nem todos tiveram a mesma capacidade de encaixe, algumas pessoas, amigos e colegas, houve algum afastamento, mas mesmo estes pouco a pouco foram se apercebendo que eu não tinha mudado, continuava a ser a mesma pessoa. Destes últimos, alguns procuraram-me algum tempo depois para me dizerem que vinham com uma ideia muito errada sobre o que era ser homossexual, e que por minha causa sentiam ter superado o seu preconceito.

Tudo isto, a meu ver, estava a ser facilitado por se tratar de pessoas que já me conheciam antes, e que já tinham formado a sua ideia e a sua relação para comigo, o verdadeiro teste viria da forma como as pessoas reagiriam ao estabelecerem um relacionamento comigo sabendo à partida que eu sou homossexual.

Devo dizer que a reacção tem sido igualmente surpreendente e gratificante, as pessoas têm mostrado que, apesar de trazerem consigo um conjunto de ideias pré-concebidas e preconceito, a convivência comigo, o dia-a-dia desfaz os mitos e a facilmente conseguemrelegar a questão da sexualidade para a indiferença que lhe é devida.

No fundo o principal motivo do preconceito é o medo, a desinformação, e o convívio com o objecto do medo é a melhor forma de o superar, acredito que quanto mais pessoas conviverem com homossexuais, mais pessoas vão superar os seus medos, a sua homofobia e mais rapidamente caminharemos para uma sociedade inclusiva. Assim, vamos sair dos armários e vamos tornar-nos todos “micro-activistas” vamos dar a nossa mão a mudar o nosso mundo.

Um beijo para o vazio...

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011

2011 chegou, terminou um ano particularmente difícil, terminou o ano, mas, apesar das minhas mais optimistas espectativas, não me vi transportado por um vortex para um universo paralelo onde todos problemas ficaram, tal qual o calendário, irremediavelmente para trás.

Os doentes continuam doentes, o dinheiro continua curto, a casa continua por acabar, os quilos continuam a mais, o cabelo continua a menos, as decisões a tomar continuam tão difíceis como ontem.
Não vale a pena estar aqui a fazer pedidos de uma ano sem dificuldades, (o primeiro problema está a quem pedir…), eles vão continuar a aparecer indiferentes aos meus desejos e ao meus pedidos por mais intensos que sejam.

Mas algo temos de aprender, algo temos de tirar das dificuldades, a nossa condição humana obriga-nos, mais, privilegia-nos com a capacidade de não repetir os mesmos erros, de evoluir em termos pessoais, em termos humanos.
A minha “grande” lição de 2010 é a consciência de que, embora seja impossível evitar-mos as dificuldades que nos vão sendo presenteadas pela vida, temos sempre a possibilidade, diria mais, a opção de não tornar as coisas mais difíceis, se conseguirmos medir as nossas atitudes, as nossas respostas, decisões, nos momentos difíceis podemos sempre optar por caminhos que pelo menos não tornem os problemas piores, que não criem uma série de novos problemas.

A título pessoal foi um ano repleto de péssimas decisões, de acções irreflectidas, acho que pouco fiz para travar a espiral de problemas que 2010 me trouxe, assim, o meu desejo para 2011 é tão pura e simplesmente mais discernimento e melhores decisões.

Um bom ano para todos …

sábado, 2 de outubro de 2010

Arte(s) e Santinhos

É um pouco difícil explicar o que me atrai quando se trata de arte, falo neste caso de pintura/desenho. Reconheço que como grande parte dos outros sentidos, paladar, olfacto, audição, a sensação de familiaridade é um aspecto importante da sensação de prazer. Neste caso o reconhecimento de certo tipo de formas, cores, composição pode fazer-nos sentirmos mais agrado a certo tipo de obras.

Por outro lado há certas obras que fogem completamente do padrão normal e é essa estranheza, esse encontro inesperado com um novo paradigma que nos fascina e nos atrai.

A discussão, ou a dicotomia de reconhecer a obra como conceito ou como execução é interessante, mas pouco acrescenta à razão porque gostamos de determinada obra, ou de determinado pintor e não gostamos de outro.

Pessoalmente sinto-me um pouco condicionado pela exposição que fui tendo pelos meus pais, e tendo a ser agradado por determinado tipo de obras com as quais cresci, em geral aguarelas, muito coloridas, com muitos elementos, do tipo de obra que cada vez que olhamos descobrimos algo diferente, e, que no conjunto parecem contar uma história, que vamos desvendando e construindo nós próprios.

Vou fazendo os possíveis por cultivar um gosto próprio, expondo-me o máximo possível a obras de todos géneros. Vou procurando estudar sobre história da arte assim vou-me reinventando neste aspecto do meu ser.

Tudo isto porque há pouco tempo conheci o Santinho, um jovem pintor a quem encomendei uma representação da minha família, que podem ver na imagem deste post. Foi uma amiga que me falou dele e gostei imediatamente do seu estilo e da sua obra. Gostei mais ainda da sua simplicidade e simpatia.

Esta simplicidade do artista fez-me recordar uma outra história, de uma obra de um artista moçambicano famoso, que adquiri num leilão de caridade, e, que fui forçado a devolver porque o artista ficou indignado por alguém ter adquirido a obra dele por um valor, que ele acho escandalosamente baixo. Espero que a fama não tranforme a simplicidade do santinho em arrogância...a ver vamos.

O meu apreço pela obra em si parece uma evolução em termos de gosto, como vêem é uma obra a tinta-da-china, mas é rica em elementos e parece contar uma história.

Tenho certeza que dentro em breve será um nome na praça, para quem quiser aproveitar o relativo anonimato, procure por ele no núcleo de arte.

Um beijo para o vazio …

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Relacionamentos ...

Não pretendo aqui dar nenhuma dar conselhos a ninguém sobre relacionamentos, este é um assunto que é muito fácil de teorizar, todos sabem exactamente o que fazer, mas, no fim cada relação estabelecesse com regras próprias que não se definem no inicio, são descobertas ao longo do tempo.

Para mim, a relação deve ser necessariamente um caminho em busca de estabilidade, a relação tem que ser vista como a base, ou, uma das bases, que nos permitem individualmente crescer na nossa esfera pessoal e profissional, se tal não acontece entramos numa relação que acaba por ser um entrave ao nosso desenvolvimento e realização pessoais, e, essa é uma relação destinada a, mais tarde ou mais cedo, fracassar.

Olhando em volta, para os amigos com relacionamentos estáveis e duradoiros encontro uma diversidade incrível, desde casais que vivem juntos há 10 anos sem que precisem de casamentos ou anéis para afirmar o seu amor e o seu compromisso, a casais que se casaram, quase, no dia seguinte a conhecerem-se, casais que decidiram viver fisicamente em casas separadas, casais que vivem relacionamentos abertos, ou mesmo que partilham parceiros sexuais ocasionais. Casais com os mesmos gostos e casais completamente opostos.

Um relacionamento é, obviamente, marcado por concessões de parte a parte, há coisas que pensamos ser importantes para nós, mas que, vamos percebendo que temos de abdicar, da mesma forma, há princípios que são essenciais à nossa identidade e dos quais não abdicamos, invariavelmente nas relações vão existir pontos de conflito, momentos em que visões antagónicas entram em conflito, e, ou surge uma nova visão partilhada do assunto, ou uma das partes cede. Neste assunto, se a relação se estabelece de forma a que uma das partes tem ascendente sobre a outra, as cedências serão sempre da parte mais fraca, mas, esse é um caminho para uma ruptura inevitável.

Ouvi na rádio há alguns meses uma visão interessante sobre o envolvimento emocional dentro de um relacionamento, um psicólogo argumentava que num relacionamento é impossível que as pessoas estejam envolvidas (“apaixonadas”) com a mesma forma, a mesma intensidade e uniformemente todo o tempo, e, se considerarmos um relacionamento longo, serão raros os momentos em que os dois indivíduos estão no relacionamento com a mesma intensidade, segundo ele, o segredo para um relacionamento duradoiro é saber gerir estas diferenças de intensidade nos sentimentos, e saber aproveitar os momentos em que a relação é vivida pelos dois com a mesma intensidade.

Um erro comum é, nos momentos que sentimos que o parceiro está mais afastado, estar a pressionar há procura de algo que, a outra parte não está disponível para dar, há que saber dar o espaço e enquadrar estes momentos como parte integrante do relacionamento.

São lugares comuns, mas não deixam de ser verdadeiros, parece-me que honestidade, diálogo, um projecto de vida, confiança, companheirismo e amor são indispensáveis na construção de um relacionamento estável e duradouro.

Não me parece ter dito aqui nada de novo, mas, por vezes precisamos de falar apenas para podermos ouvir.

Um beijo para o vazio ...