segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Oito

Conduzia o meu carro diligentemente pela 24 de Julho e pensava para comigo: “Hoje vai ser um dia mesmo bom”.

Tudo assim indicava, começando pela data 08-09-2016. Não só por ser o meu aniversário mas porque esperava por este dia já há 9 anos. Passo a explicar:
 Aos poucos fui-me apercebendo que o destino falava comigo por números e nenhum tinha mais encanto que o número do dia do meu nascimento que tinha marcado para sempre a minha sorte, o número oito.

Este número foi-se manifestando nos momentos mais importantes para mim, mas, mais que isso, foi marcando a minha sorte no dia a dia. Pode parecer meio doentio mas vamos às evidencias.
  1. Minha filha nasceu a 02.02.2002, ora  0 + 2 + 0 + 2 + 2 + 0 + 0 + 2 = 8;
  2. Conheci o meu parceiro a 02.01.05, ora 0 + 2 + 0 + 1 + 0 + 5 = 8; 
  3. Comecei no meu emprego actual a 23.12, ora 2 + 3 + 1 + 2 = 8.
Fui percebendo aos poucos que quanto mais dígitos de um evento usava para chegar ao fatídico número oito, mais profundo e relevante este evento se mostrava. Nos 3 casos atrás o nascimento da minha filha marcava o oito na plenitude da sua dimensão com 8 dígitos a somarem o 8, no terceiro caso chegava ao 8 apenas com a soma de 4 dígitos, do dia e mês.

Enquanto me perdia nestes pensamentos, reparei na matricula do carro que me precedia parado do semáforo da Av. 24 de Julho com a Vladimir Lenine, um Kia Picanto vermelho, ACK 035 MP, ora 0 + 3 + 5 = 8. Esboço um sorriso por sentir mais esta nota do destino em como o dia seria mesmo importante.

Mas descobri mais regras nesta minha “loucura”, por exemplo o número nove (9) podia muitas vezes ser descartado das contas, funcionava como uma espécie de elemento neutro. Por exemplo, a matricula do meu pequeno Nissan Verissa cinzento era MMJ 980 MP, neste caso a lógica aplicar-se-ia em duas partes ( 9 + 8 ) + 0, na primeira parte  9 + 8 = 17 ou seja,  1 + 7 = 8, e dai poderia ignorar o 9 ficando apenas com 8 + 0 = 8.

Assim foi com o meu nascimento (08 + 09 + 1971) = 8 + 9 + (9) = 8 - um dia auspicioso e que se repetia a periodicamente na mesma forma -  (08 + 09 + 1980), (08 + 09 + 1989), (08 + 09 + 2007). Foi neste último que me apercebi do sentido de oportunidade que o destino me reservava para este dia. 
Por ironia só me apercebi tarde de mais quando, ignorando todos sinais, não comprei o bilhete de lotaria que esteve na minha mão. Eram 08 horas e 08 minutos quando devolvi a calota (00990008) ao vendedor e, mal ele se afastou, percebi o erro da minha acção. Foram precisos 8 dias para confirmar na edição 908 do jornal notícias que o número vencedor da lotaria especial com um premio de 8 milhões de Meticais saíra à calota que esteve nas minhas mãos.

Nesse dia tudo ficou mais claro e percebi como funcionava o intricado emaranhado que o destino colocara para o meu caminho, percebi que tudo em minha volta girava à volta deste bem afortunado número. Percebi ainda que tinha de aguardar pacientemente mais 9 anos pelo dia de hoje para ter a minha próxima oportunidade.

Entretanto estacionava já o carro em frente ao meu destino, o número 44 da Vladimir Lenine, (4 + 4=8) um prédio novo como estes que parecem crescer como cogumelos pela cidade de maputo. O meu encontro estava marcado para as 08:00 no nono andar (9 elemento neutro não se esqueçam), na sala número 7. 

- Sala Sete? – Perguntara eu à telefonista, - tem certeza que é sala sete mesmo, não será sala oito? - pedi e insisti que ela relesse os seus papeis; alguma coisa tinha de estar mal. Mas não. Ela insistiu que o Director Cumbana marcara o encontro na sala número sete e que não tinha mais informações sobre o motivo do encontro e que não, não podia alterar a sala.

Neste momento olhava o carro estacionado em frente ao espaço que vagou como que por magia mesmo em frente ao edifício e la estava a matricula ACJ 223 MP. Sete de novo? Larguei um audível desalento tão murmurado que não eu próprio percebi o que dissera. 

Daí para a frente foi só a piorar. O guarda do prédio ostentava distintamente uma camisa com um esbatido "Channel Nr 7"  no peito. De novo resmunguei enquanto me anunciei e me dirigi ao elevador.
Ao entrar no elevador estavam seis pessoas perfiladas já dentro, comigo éramos 7. Olhei para o painel dos botões do elevador desesperadamente em busca de um número 8 que me pudesse acalmar. Pisei o botão com determinação mas este se recusou em acender. Voltei a pressionar e nada.

  • Caro Senhor, o elevador não para no oitavo, está avariado. Só pode sair no sétimo. - disse uma das almas que de tão baralhado já não conseguia distinguir.
  • Obrigado prefiro sair no nono. - Afirmei já em desespero.
  • Também não funciona - disseram as seis vozes em coro e em uníssono. Só funciona o sétimo.

Meu coração disparou a-ritmado em pulsações galopantes. Já começara a transpirar. Pensei em sair e subir a pé mas não me sobrava tempo, não me restava opção.

Durante a aparente interminável subida, subia também a minha tensão, o meu calor, a minha respiração tornara-se ofegante. Sentia-me sem forças quase a desmaiar.

Lá chegamos ao sétimo andar, depois de atropelado pela pressa dos indistintos companheiros de viagem, arrastei-me escada acima. Tentei concentrar-me a contar os degraus. Eram lances de 7 degraus cada. Cheguei ao oitavo andar aguardando que este estivesse anunciado por um grande 8 na parece, mas o lugar do número encontrava-se vazio.

Depois de mais uma penosa caminhada pelo corredor lá dei de caras com o a sala número 7. Gloriosamente anunciada por um reluzente e dourado número.
Minhas mãos tremiam enquanto aproximava a mão da maçaneta. Sentia o coração fora do peito. Estava todo eu molhado em suor. De repente senti-me cair e tudo escureceu.

  • “Que lástima!” comentava o Dr. Cumbana para a sua assistente. “Morreu assim, de um momento para o outro. Ataque cardíaco. Mesmo à porta de receber Oito milhões de dólares de herança.”.
Enquanto se afastavam do edifício, dois maqueiros colocavam o corpo na ambulância com a matrícula AMD 800 MP.


Um beijo para o vazio …

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Zeca o irresistível

Nasci assim meio estranho sem saber que o era. Chamaram-me de Zeca, mas fui marcado de muitos outros nomes que pouco diziam de mim, mais falavam daquilo que os outros achavam do que daquilo que eu era e sentia. Não tenho nome para mim até porque nunca me achei mais diferente do que a diferença que todos temos uns dos outros.

Tinha um dom, ou uma maldição, não sei bem, melhor dizer que tinha uma habilidade, era irresistível. Não se trata de uma vaidade não, até porque não era particularmente bonito, nem sensual, era simplesmente irresistível. Um dom estranho e diria sobrenatural pois bastava cruzar os olhos com alguém “interessante"e zás, estava preso por uma teia invisível e destinado a cortejar e insistir até que eu consuma inteiramente a sua alma e realizasse os desejos que este nem mesmo conhecia.

Diria que os meus olhos eram a própria seta do cupido, e quando disparavam, não importava género, idade, raça, religião, o fim seria sempre o mesmo.

Recordo vivamente a primeira vez que se manifestara o meu super-poder, tinha vindo a Maputo para prestar exames na UEM e me alojara em casa de um tio, irmão mais novo do meu pai. O meu tio era um jovem formado e casado de fresco com Helena uma mulher deslumbrante que meus olhos temiam em fitar. Mas não foi Helena não a primeira vitima.

Certo dia, depois de mais uma longa noite de estudo despertei anormalmente tarde e, como habitual desloquei-me ao banheiro para a minha higiene matinal, não estanhando a porta fechada, que pela hora me achava sozinho, irrompi banheiro a dentro sem noção que este estaria ocupado. Dei de caras, ou antes de corpo com o meu tio completamente nu saindo do chuveiro. 

O corpo escultural e sarado, molhado, a sua pujança escancarada despertou a minha habilidade e quando meus olhos se uniram aos seus o destino de primeira vitima estava marcado.

Quando me apercebi do que se passará fechei imediatamente a porta e fugi para o quarto não ainda consciente daquilo que despertara.

Nem cinco minutos passaram e a primeira vitima bateu de leve à minha porta e com um tom de voz de uma suavidade que nunca ouvira perguntou. - Está tudo bem meu sobrinho?

Fiquei gelado, em pânico, as palavras não me saiam da boca. - "Posso entrar querido?" 

“Querido”, como assim, nunca antes ouvira tal palavra. Apressei-me a trancar a porta e repliquei. - Tio não me sinto bem, acho que estou com febres, vou ficar a descansar mais um pouco.

Nesse primeiro dia a desculpa funcionou. E os dias seguintes passei trancado no quarto tentando deixar o fogo que ateara amainar. Mas a cada dia, do outro lado da porta, os apelos, as suplicas cresciam. De pequenas insinuações transformaram-se em grandes e laudas declarações. Eu fechado em silencio sem saber bem o que fazer.

As suplicas iniciavam assim que Helena saía para o serviço e duravam um tempo indeterminado mas crescente. Por outro lado minha tia se preocupava e reclamava com meu pai que eu estaria deprimido e que passava os dias no quarto, nem para comer saia. Já nem as desculpas de que estudava pareciam tranquiliza-la.

Num infame dia dos heróis moçambicanos tudo de desfechou, incauto abandonei meu cárcere sem saber que era feriado. Minha tia tinha saído, e ao entrar no corredor la estava ele feito um caçador dissimulado na mata aguardando a sua presa. Assim que os olhos se voltaram a cruzar foi como se o mundo em volta sumisse, e uma força magnética incontrolável puxasse os dois corpos para um turbilhão de sensações e de paixões.

A confirmação deste meu super-poder veio pouco depois. Ainda imbuídos no leito em plena paixão e a porta do quarto se abre revelando a figura igualmente deslumbrante de minha tia. Vinha da sua corrida com roupas de lycra que deixavam realçado a sua figura perfeita, de curvas que tinham de ser desenhadas a compasso.

De uma surpresa inicial meus olhos, depois de absorverem a sua figura em luxuria, encontraram seus olhos e viram estes transformarem-se de olhares irados em olhares de desejo quase instantaneamente.

O que se seguiu é indescritível, uma amalgama dos 3 corpos fundidos num ser único e insaciável, liberto de pudores e de tabus em delírio de prazer.

Foi assim a minha introdução ao mundo dos adultos, estabelecendo uma fasquia bem alta. Percebi de seguida o lado negro do meu poder. Consumado o desejo o alvo deste passava do amor profundo à rejeição, como que  envergonhado por se desvendarem desejos que desconhecera.


Nem meia hora passara e estava eu de mochila às costas na rua, proscrito e procurando a próxima vitima.


Um beijo para o vazio ...

sábado, 30 de abril de 2016

Helena

Caminhava sem destino percorrendo a marginal da minha cidade. Fitava intensivamente os olhos de cada pessoa com que me cruzava.
No breve instante em que se tocavam os olhares mergulhava na sua alma e procurava algo. Procurava uma evidencia de humanidade. Procurava uma resposta sem saber qual era a pergunta.
Invariavelmente sentia-me eu próprio invadido e escrutinado. Sentia que revelava muito mais do que descobria. Revelava coisas que eu próprio desconhecia.
A incapacidade de esconder a minha essência ardia em meu ser numa agonia incontrolável, e, invariavelmente desviava o olhar em busca de alivio. Mas como um drogado em busca da próxima dose procurava imediatamente o proximo olhar.
No meio desta luta insana com a minha falta de razão descobri Helena. No seu olhar li tudo, naquele instante revelei nada. Senti uma pureza divida, um humanismo para lá da própria humanidade, dancei com o destino, morri e renasci.
Desta vez não consegui desviar o olhar, este, como que magnetizado, ficou preso no olhar dela, e o olhar dela preso estava no meu olhar.
Estendi a mão e esbocei um sorriso tímido. Todos gestos medidos e lentos com medo que o  vinculo, que me parecia ter tanto de forte como de efêmero, se quebrasse.
- “Helena” disse ela com uma voz transbordando em ternura.
Parecia um sonho. Talvez fosse mesmo um sonho, mas nesse caso preferia não despertar. Preferia ficar ali e agarrar-me àquele momento até que meu corpo não resistisse mais, e, definhasse sem acordar.
Tentei responder, mas do meu próprio nome não me recordava. Procurava na memória, sem nunca desviar o olhar, e não me conseguia lembrar. A minha resposta tardava e quanto mais demorava mais percebia que o momento chegava ao fim. Não tinha palavras, a minha boca permanecia fechada. O desespero tomava conta de mim.
Na minha incapacidade algo estranho acontecia a Helena. Ela desvanecia. Esbatia-se. O seu olhar passou da serenidade para o desespero. O seu desespero se juntava ao meu, incapaz de parar o que se passava em frente a mim.
E assim deixou de ser, e, com o seu desaparecer, também eu desapareci. Também eu deixei de ser. Fiquei vazio.
Relutante e pesaroso retomei o meu caminho. Olhando no chão. Sem coragem de vasculhar mais almas, na certeza que nada mais restava em mim.

Um beijo para o vazio

segunda-feira, 7 de março de 2016

O Caril de caranguejo da Dona Olga (Parte 2)


Perto das 13:00 começaram a chegar os convidados. A primeira a chegar, cheia de entusiasmo e preparada para não perder uma pitada dos acontecimentos lá estava a Dona Carminda, excessivamente vestida e maquiada para um evento tão pouco formal. Trazia o seu famoso bolo de mármore que, segundo ela, já tinha encantado a mesa de certo sultão.

Não demorou muito para que os 14 se juntassem em torno da mesa de pedra. O espaço, nas traseiras do quintal e adjacente à sala de visitas ficava nesta altura do ano como que coberto por um manto branco de uma buganvília exuberante, a mesa de pedra era rodeada por um pequeno muro que servia também de assento. Algumas pesadas cadeiras de ferro com coloridas almofadas  serviam os glúteos mais sensíveis. 

A mesa estava devidamente recheada de entradas e petiscos. Todos servidos de bebida foram conversando em alegre cavaqueira antecipando a entrada triunfal da panela do caranguejo.

O espetáculo não se fez rogado, o cortejo vinha da cozinha por um caminho lateral, em frente a pequena Dona Olga de sorriso aberto e acolhedor, seguida do Xavier com a tão esperada panela, e com o Julio carregando a panela do arroz. Faltou à solenidade do cenário um rufar de tambores enquanto as panelas eram depositadas no lugar de honra.

O Sr. Jorge adiantou-se dando o exemplo e serviu-se. Primeiro do arroz, que de seguida foi generosamente regado com molho da panela do caril, com a carne e com alguns corpos e patas de caranguejo ao lado. Um indispensável pedaço de pão para aproveitar o molho. Para o Sr. Jorge o pedaço de pão tinha de ser barrado com bastante manteiga.

Entretanto já tinha sido adicionado à mesa uma tábua de madeira e um pequeno martelo para ajudar a partir a dura casca das tenazes do caranguejo.

As horas seguintes foram de degustação, conversa e muito álcool. Os colegas do ministério não tiveram dificuldade de integrar-se e foram paulatinamente ficando inebriados tal qual o resto dos convidados.

A certa altura o Manuel já incapaz de discernir quem estava em volta: “Arlindo fui lá nas massagens das chinas na Mau-tse-tung. Sabes que no final fui atacado pela moça? Não sei o que pensam aquelas. Ainda mais foi aquela tal Mei Ling que recomendaste. Acho que desaguentou com o meu charme … hehehehe.”

A esta altura o Sr. Arlindo não sabia onde se meter, a expressão da esposa mostrava um tormento de quem tentava conter um ataque de fúria. O marido falava com muito apreço do sitio e não dispensava as duas visitas semanais para se livrar o "stress do trabalho”.

“Parece que está na nossa hora. Vamos Arlindo!”. Disse a ofendida esposa com uma assertividade que fez saltar o pobre Arlindo do assento. O Manuel nem se atreveu a mexer-se e percebeu pelo olhar do chefe que o tema não ficaria por ali.

Com grande sobriedade a Dona Olga agradeceu a visita e acompanhou os convidados a porta. Aproveitou para expressar a sua simpatia pela situação da convidada pressionando firmemente sobre o ombro enquanto se despedia. “Tenha calma que tudo se resolve.”.

Ao voltarem a mesa os restantes convidados rebolavam-se de riso. A Dona Olga sobrepôs ao alarido um sonoro “Quem vai querer sobremesa?” cujo tom matou a galhofa e devolveu a todos o pachorrento ritmo de um domingo a tarde. Todos menos a Dona Carminda que se retorcia num cantinho incapaz de conter a agitação.

Levantou-se quase a correr e despediu-se sem parar “Tenho de ir, preciso fazer uns telefonemas!!!”. Parecia com medo que os detalhes da cena se esfumassem antes de passar a palavra.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Caril de caranguejo da Dona Olga (Parte 1)

Algumas das memórias mais antigas que tenho estão relacionadas com as Domingadas em casa dos meus pais. O Domingo era um dia de festa, de agitação, uma roda de amigos à volta de uma mesa de pedra excessivamente alta, e, sempre em volta do Caril de caranguejo da minha mãe.

O caril da Dona Olga era em si um fenómeno, uma mescla de culturas, na sua panela eram fundidos sabores antagónicos num prato verdadeiramente universal. Ao nosso caranguejo eram adicionadas especiarias orientais e enchidos lusitanos. O resultado era algo que para mim era e é um sabor moçambicano autentico.

Felizmente a receita não se perdeu, antes de se despedir deste mundo a minha mãe passou a receita para a geração seguinte, na pessoa dos seus genros.

Este Domingo fizemos uma Carilada em casa com alguns amigos e fez-me nostálgico inspirando a misturada de memórias antigas, conversas e fantasia que se segue.

Um beijo para o vazio …


O Caril de caranguejo da Dona Olga (Parte 1)

“Dona Efigénia! como está a encher o saco com esses pequenos? Assim não compro mais consigo.” - bramava a Dona Olga para a sua vendedeira de caranguejo predileta do mercado do peixe.

Tudo o jogo habitual em que uma e outra faziam como se fosse a primeira vez. Era o refilar com o preço, fazer de conta que ia procurar outra vendedeira, a areia no fundo do saco a fazer mais peso, a balança mafiada, enfim, um jogo rotineiro a que as duas se davam o gosto de fazer, e que no fim resultava sempre no mesmo.

Uma e outra saiam que nem gladiadoras triunfantes na arena do mercado do peixe.

Este era o inicio do longo processo do caril de caranguejo da Dona Olga, e tinha lugar no quase eterno mercado do peixe, mesmo em frente ao Clube Marítimo, na marginal de Maputo.

Junto do essencial caranguejo vinha sempre mais alguma coisa, um quilito de lulas, garoupa, camarão, amêijoa, tudo após uma gladeio similar ao da Dona Efigénia e a mesma sensação vitoriosa.

Tudo era atafulhado no cesto de palha descomunal e carregado pelo xipfanhana ajudante também habitual. Depois de dispor de umas moedas ao miúdo, inquirir-se da escola e das aulas e de uma palavra de encorajamento e sermão, o cesto era depositado no porta bagagens do fiável Colt Galant amarelo torrado e lá ia a Dona Olga de regresso a casa para iniciar a fase seguinte do preparo.

Arrumado o carro na garagem aberta do número 79 da Fernão Lopes vinha o habitual berro pelo Xavier. “Vamos a despachar já não temos muito tempo. Prepara esse caranguejo enquanto vou adiantando o resto. Aproveita para escamar o peixe e limpar as lulas.”.

Na sua cozinha o Xavier já tinha deixado tudo pronto para a sinfonia da sua patroa. O chouriço de carne cortado às rodelas, o entrecosto arranjado em cubos, a cebola picada, as caixas dos temperos alinhadas em redor do almofariz, e o panelão assente no fogão.

Com a precisão de um alquimista a Dona Olga fazia a sua mistura de temperos, o pó de caril, pimenta, e, outros tantos, numa combinação para a qual mantinha o maior secretismo. Tudo calculado proporcionalmente de acordo com a audiência do dia.

Hoje, o Sr Jorge convidara colegas do Ministério. O Dr. Alrindo, secretário do ministro que traria a esposa, e o novato técnico de contas o Manuel. Para além destes fariam-se presentes alguns dos habitués, amigos chegados, primos, vizinhos num total de 13. Como a Dona Olga nunca permitia que tal número de sentasse à sua mesa, não fosse dar o mesmo azar que certa malfadada ceia, lá empurrou muito a desgosto a Dona Carminda, uma vizinha com problemas de conter a língua.

O cheiro da mistura de temperos com a carne e com o caranguejo foi inundando a casa. A mesa estava posta, os pratos em pilha no centro, os talheres desmarnados cuidadosamente desarrumados numa pilha, copos, guardanapos e as bases para o panelão esperando por este.

O Sr Jorge como era habito se encarregara das bebidas, do gelo, dos colemans. Usava das suas artimanhas habituais, enchia a garrafa de Chivas de 18 anos com whisky corrente, não  tanto para impressionar os convidados mas sim para expor a sua presunção de expertise. Calculara meticulosamente a quantidade de vinho e de cerveja com base no seu registo mental dos hábitos dos convidados e com um mestria estatística só ao alcance dum economista do seu gabarito.

(continua …)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Natal de um ateu hipócrita

Odeio o Natal, foi assim que me deu por iniciar este texto, mas não é verdade não odeio o Natal, embora não morra de amores por ele também. Vejamos se me explico melhor…

Sou ateu, e assumo-me hipócrita, hipocrisia esta que fica mais patente nesta época do ano. Nesta altura vejo-me um poli-hipócrita … um pequeno aparte fiquei admirado que o corrector ortográfico tivesse reconhecido a palavra … damn it … eu aqui a imaginar-me tal Mia Couto um inventor de Português.

Voltando ao texto, a primeira e maior hipocrisia é ser ateu e não odiar o Natal. Falo mal do consumismo mas comprei umas prendinhas, para os mais chegados apenas, a verdade é que gosto de todo o ritual em volta desta quadra festiva. Gosto de organizar o Jantar de Natal do escritório, do amigo secreto, de escolher a prenda certa para a pessoa especial, de ser surpreendido com uma prenda inesperada, gosto da fazer a arvore e das luzes, gosto da mesa para ceia montada a preceito (recorda-me a minha mãe), do bacalhau na ceia, da roupa velha no dia seguinte, gosto de tudo isto. Ao mesmo tempo sei que aquilo que está na base disto tudo é bastante perverso, uma montagem elaborada misturando rituais seculares, pagãos, e, uma boa dose de propaganda consumista para criar um engodo que mantém milhares de pessoas presas a uma ideologia que tarda em acompanhar os tempos.

A mais complexa hipocrisia é o acto de solidariedade anual … lá fui eu no meu anual e pouco habitual entusiasmo militante a mobilizar o resto dos colegas para contribuírem, para participarem, para se entusiasmarem…a hipocrisia aqui claro que está em acharmos que a participarmos uma vez por ano no que quer que seja estamos a fazer alguma coisa. Mas fui lá militantemente engajado a distribuir a sopa solidária pela cidade, mas não voltei de coração cheio, muito pelo contrário, voltei abismado com aquilo que conseguimos todos dias ignorar para continuar contentes e felizes nos nossos pequenos mundos … bom acho que foi mais uma hipocrisia mas seguindo em frente.
Observando um pouco pelas redes sociais os posts, as fotos e os comentários percebi que não estou sozinho na hipocrisia, somos um montão deles, se nos uníssemos fazíamos um grande partido e olha que tínhamos com certeza mais “ideais” comuns que muitos partidos de verdade.
Uma observação mais cuidado e deu para ver que há vários tipos de hipócritas, talvez haja níveis de hipocrisia. Vou tentar brincar com algumas classificação:

O/A hipócrita Sem Noção - aquele que está numa ação de solidariedade para mostrar ao mundo como é solidário e é de tal forma desligado da realidade que consegue tirar selfies em momentos muito impróprios;
O/A hipócrita Oportunista -  bloguista/jornalista/politico/pessoa publica que participa  ou organiza a ação de solidariedade como forma de auto-promoção. Fácil identificar pela enxurrada de mediatismo que acompanha a ação e muito provavelmente, para que ninguém tenha duvidas coloca o próprio nome na campanha;
O hipócrita seguidor - este é de fácil descrição, foi porque os outros foram, se pudesse não ia mas ficava mal ficar de fora;
O hipócrita ausente - este é uma raça particularmente interessante, não vai, e não entende porque os outros vão, e em particular porque é que lhe fazem sentir mal de não ir.

Podia continuar por aí a fora a brincar um pouco com esta ideia mas não faz mais sentido a mensagem está clara. Não sei em qual dos casos me encaixo mas também sei que não me arrependo de ter-me hipocrisado este ano.
Não que traga nenhum sentimento de dever cumprido ou que ache ter feito alguma diferença quer na vida de quem precisa ou mesmo na vida das organizações. Senti no meu gesto um reconhecimento a uma organização (neste caso a Plataforma Makobo) que todos dias faz da solidariedade o seu modo de vida, faça chuva, faça frio, faça vento, sem câmaras e sem mediatismo estão lá  na lutam para minimizar o sofrimento dos outros e para suprimir onde o estado chega, e todos nos cidadãos também não.

Fica a determinação comigo mesmo para não esperar pelo próximo natal para dar a minha mão e apoiar esta ou outra ação social.

Nesta história de solidariedade natalicia não posso deixar de recordar-me de uma cena dos meus 15/16 anos com a Dona Alzira em Braga, cidade mais beata que já ví, desculpem-me os amigos bracarenses mas quando lá fui era assim. A Dona Alzira, uma católica ferrenha, era uma amiga dos meus pais e fiquei algumas vezes uns dias de férias em sua casa. Lembro perfeitamente um dia perto do Natal que a Dona Alzira puxa-me do braço para a acompanhar a fazer a sua Ação solidária de Natal. Saímos a pé à procura de um mendigo a quem ela faria o seu gesto solene e voltaria para casa com a sua consciência mais leve. Olha que foi um dia penoso, percorremos milhas à procura de um mendigo para a Dona Alzira e nada. Finalmente findas umas 3 horas de preambulo lá encontrou alguém num canto sentado e com um ar suficientemente desterrado para atingir as expectativas solidárias da Dona Alzira. Em surdina e que a Dona Alzina não nos oiça, acho que ele estava apenas com os copos.

Foi uma boa dose de hipocrisia e talvez onde a minha formação se tenha iniciado.

Um beijo para o vazio …

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Micro-activismo

Mais e mais me vejo fascinado com a forma como cada um de nós pode influenciar as pessoas à sua volta.Como, basta a conduta individual e o agir como exemplo para mudar a mentalidade daqueles que nos rodeiam e com quem convivemos no dia-a-dia.

Pareceu-me adequado chamar a este fenómeno de Micro-Activismo, embora mais tarde tenha-me apercebido que o termo, Micro-Activismo já é usado em outro contexto, não focado no aspecto restritivo do meio de acção, mas antes na restrição do tema de acção.

Seja como for parece-me que a par do Activismo no conceito tradicional, feito e muito bem pela Lambda, com a formação e educação da sociedade, com a participação junto das outras organizações da sociedade civil, com as acções de sensibilização, e de promoção de direitos, há um espaço de acção que deve ser ocupado por cada um de nós vivendo abertamente a nossa sexualidade e “educando” as nossas famílias, os nossos amigos, os nossos colegas, enfim o nosso microambiente.

Desde que assumi a minha homossexualidade que senti um apoio muito grande dos meus amigos, fizeram de tudo para me mostrar que nada mudava, que me conheciam como eu sou e assumiam esta “descoberta” com a indiferença que ela requeria. Claro que nem todos tiveram a mesma capacidade de encaixe, algumas pessoas, amigos e colegas, houve algum afastamento, mas mesmo estes pouco a pouco foram se apercebendo que eu não tinha mudado, continuava a ser a mesma pessoa. Destes últimos, alguns procuraram-me algum tempo depois para me dizerem que vinham com uma ideia muito errada sobre o que era ser homossexual, e que por minha causa sentiam ter superado o seu preconceito.

Tudo isto, a meu ver, estava a ser facilitado por se tratar de pessoas que já me conheciam antes, e que já tinham formado a sua ideia e a sua relação para comigo, o verdadeiro teste viria da forma como as pessoas reagiriam ao estabelecerem um relacionamento comigo sabendo à partida que eu sou homossexual.

Devo dizer que a reacção tem sido igualmente surpreendente e gratificante, as pessoas têm mostrado que, apesar de trazerem consigo um conjunto de ideias pré-concebidas e preconceito, a convivência comigo, o dia-a-dia desfaz os mitos e a facilmente conseguemrelegar a questão da sexualidade para a indiferença que lhe é devida.

No fundo o principal motivo do preconceito é o medo, a desinformação, e o convívio com o objecto do medo é a melhor forma de o superar, acredito que quanto mais pessoas conviverem com homossexuais, mais pessoas vão superar os seus medos, a sua homofobia e mais rapidamente caminharemos para uma sociedade inclusiva. Assim, vamos sair dos armários e vamos tornar-nos todos “micro-activistas” vamos dar a nossa mão a mudar o nosso mundo.

Um beijo para o vazio...