segunda-feira, 30 de agosto de 2010

White Nigga

“White Nigga”, “o branco mais preto que conheço”, são alguns dos termos que os meus amigos usam para expressar a minha aceitação/inclusão no seu grupo.

Ontem ouvi uma expressão do género ser direccionada à minha sobrinha “És a branca menos branca que conhecemos”. Lembro-me de outros amigos, de outras idades e em diferentes meios sociais receberem semelhantes “elogios”.
 
Em geral entendo a afirmação com alguma vaidade, significa acima de tudo uma forma carinhosa de mostrar empatia comigo “apesar” da minha cor, mas porquê esta necessidade de negar a cor da minha pele para afirmar a minha aceitação no grupo?

A explicação mais viável é que quem as profere encontra na minha postura algo que contradiz a atitude do estereótipo do branco. O branco, especificamente o Luso-descendente, é visto como sendo racista, arrogante, malcriado e vive num círculo fechado de amizades não se dando a conhecer fora do seu meio.

Não consigo perceber de onde vem esta imagem, os estereótipos valem o que vale, se por um lado permitem fazer alguma critica social por outro tendem a generalizar coisas que não são passivas de generalização, não percebo como alguém que tenha crescido no mesmo contexto histórico e social que eu tenha o comportamento que se atribui aos Luso-descendentes.

A casa onde cresci nunca foi elitista ou preconceituosa, sempre vivi rodeado de vizinhos e amigos de todas raças, credos e posses, como todos que vivemos os anos 80 em Moçambique, quando faltava açúcar íamos com um chávena de chá pedir ao vizinho e ninguém se preocupava se o vizinho era branco, preto, mulato, china ou indiano.

Alguém levantou a possibilidade que o elitismo tenha começado com os “brancos” que regressaram depois da guerra dos 16 anos e não viveram a comunhão nacional moçambicana dos anos 80.

Não tenho orgulho na cor da minha pele, mas também não tenho vergonha, da mesma forma como não tenho orgulho ou vergonha da minha orientação sexual, ou do facto de ser destro, são características minhas que não me definem como pessoa.

Sinto acima de tudo, que uma das coisas que mudaram para pior neste tempo pós Samora fui uma súbita consciência de raça, de etnia e de nível social, os jovens agrupam-se desta forma e daí resulta um “racismo” e um reforçar dos estereótipos de raça.

Saudades do papá Samora.

Um beijo para o vazio ...

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