sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Canudo o quanto vales ...

"Vês? este é o pauzinho de amolgar consciências"
(pelo menos era assim a tradução que me lembro)
Maputo acorda calma a recompor-se dos tumultos dos últimos dois dias.

Muito já se escreveu e muito ainda se vai escrever sobre o 1 de Setembro, há muitas lições a tirar, foi destapado o véu que encobria os problemas sociais numa imagem de desenvolvimento e tranquilidade.

Parece-me que a quem era mais importante aprender alguma coisa com o sucedido vive num estado de arrogância e convencimento que lhe torna impossível mudar, mais, está rodeado de um bando de inúteis, cujo papel é simplesmente anuir e aplaudir as ideias do seu “Líder Supremo”, “Pais da Nação” ou “Tio Patinhas” como começa a ser apelidado pelo povo.

Não me vou centrar na análise política, nem nas consequências sociais do problema, há excelentes análises feitas nos jornais e blogs de quem realmente percebe da matéria, mas achei um aspecto muito primário, aqui, um tanto ao quanto hiperbolado e simplista.

Durante dois dias a cidade de cimento viveu sitiada, não havia transportes e vivemos uma separação física entre duas classes sociais cujo fosso terá sido acima de qualquer outro motivo a razão de toda confusão.

Na cidade ficou a nossa “Nova Burguesia”, ficaram os Doutores, ficaram os engenheiros, os políticos, os programadores, os consultores, os coordenadores, os directores, juristas, economistas e outros -istas e -ores iguais. Com os seus méritos e laudos, mestrados e doutoramentos, com suas análises, pontos de vista, com seus salários gordos, com seus automóveis, a ver os acontecimentos sentados nas suas poltronas e nos seus LCD monstruosos.

Na periferia ficaram os padeiros, os cozinheiros, os empregados domésticos, os guardas, os estivadores, as vendedoras do bazar, os varredores de rua, os carpinteiros, os electricistas, os pedreiros, a classe social que vive com o salário mínimo e a quem vai realmente fazer diferença os 2,5 MT de aumento do pão, e o aumento da electricidade, água, arroz, etc.

A verdade é que a ausência destes últimos fez parar a cidade, afinal quem produz alguma coisa real , palpável está neste grupo. Qual a importância real de 20 linhas de código, de um relatório bem escrito, de uma lei bem redigida se não houver quem efectivamente produza alguma coisa real e que faça com que o dia a dia possa acontecer com naturalidade.

Se tivéssemos prolongado um pouco mais este cerco teríamos uma cidade cheia de Doutores famintos e sujos incapazes de tomar conta de si próprios. Não seria esta razão suficiente para percebermos que o fosso entre estas duas classes não pode ser tão grande assim, para entendermos que, se é inevitável o aumento do custo de vida, então este deve ser assumido pelos primeiros e desta forma ser feita alguma justiça social.

A revolta teve mérito, só foi mal conduzida, não vamos esperar pela próxima para resolver este problema.

Um beijo para o vazio ...

1 comentário:

  1. A revolta foi a da fome. Numa sociedade em que a maioria da população vive no limiar da sobrevivência era o esperado. Assim funciona o "3º mundo", onde neo-colonialismo, interesses capitalistas e o atraso cultural de um povo se misturam.

    (obrigada por visitar o meu blog)

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